19 de março de 2016

Resenha: Quarto, de Emma Donoghue

Esse livro acabou comigo. Quem acompanhou as premiações do Oscar esse ano, deve ter ouvido falar de “O quarto de Jack”, filme inspirado no livro, que recebeu quatro indicações, incluindo a de melhor filme e levando o merecido prêmio de melhor atriz para Brie Larson. Se você ainda não viu o filme, eu, surpreendentemente, recomendo que veja o filme sem saber nada da história, e depois leia o livro. A experiência será bem mais interessante. Mas pra quem já sabe o enredo, ou já viu o filme, vamos lá.



TÍTULO: Quarto
AUTOR: Emma Donoghe
PÁGINAS: 350
EDITORA: Vênus


'Quarto' conta, através do ponto de vista de Jack, um menino de cinco anos, o seu dia a dia com a sua mãe em seu mundo particular. E esse mundo se resume a um quarto. Em um pequeno espaço, sem janelas, e com uma porta constantemente fechada, onde estão quase empilhados banheira, fogão, televisão, geladeira, guarda-roupa e cama, ele e Mãe (nunca nomeada no livro) passam seus dias realizando mil pequenas atividades, divertidas aos olhos de Jack, mas que fazem o leitor sofrer junto com ela. Ao final de cada dia, Jack é colocado em segurança dentro do guarda-roupa para que nunca presencie as visitas do velho Nick, que vem quase todas as noites buscar o lixo, trazer comida e ‘fazer a cama ranger’.

Enquanto vemos o cativeiro pelos olhos de Jack, percebemos o quanto sua mãe o poupou da realidade em que ele vive. Jack acredita que todo o mundo se resume ao Quarto. Que o Velho Nick vem do Espaço Sideral, e que tudo que ele vê na TV são outros planetas. Sua vida no quarto é divertida, interessante e instigante. Mas, ao completar cinco anos e fazer cada vez mais perguntas, a Mãe começa a contar pra ele, aos poucos, a verdadeira história (e nesse ponto, eu achei a maneira como isso acontece no livro bem melhor que o filme), e junto com Jack percebemos o todo o horror da sua situação. 

Há 7 anos a Mãe está confinada no Quarto... mas agora que Jack conhece a sua própria história, chega a hora dos dois colocarem um plano em prática. As chances de dar errado são altas, e quase tudo depende de Jack, mas é a única chance que eles tem. Mas sair do quarto pode não ser tão difícil quanto superar o quarto.




Certamente, a narrativa é o principal diferencial dessa obra. Ouvir apenas os pensamentos e opiniões de Jack sobre a Mãe, o Quarto e o Lá Fora é, ao mesmo tempo angustiante e encantador. A sua inocência e ingenuidade na forma de interpretar o mundo nos fazem questionar o quanto precisamos para viver e a nossa futilidade diária. 

Além disso, a Mãe é uma personagem fascinante. Dentro de um dos piores cenários possíveis para uma mulher, ela consegue fazer o inimaginável, e criar um mundo agradável e fascinante para Jack, que tem um enorme carinho e respeito pelo Quarto e tudo que há dentro dele. 

Embora seja um livro tendo um sequestro como tema principal, as investigações, prisão, discussão ‘do que leva alguém a fazer uma monstruosidade dessas’ não é o foco do livro. A autora está mais preocupada em trabalhar as consequências desse crime hediondo. Como uma criança que viveu 5 anos inteiros confinada em um espaço tão pequenos vai conseguir lidar com o mundo exterior, pessoas, sons, luz, etc. Como uma jovem raptada que fez do seu filho gerado pelos constantes abusos a salvação da sua sanidade durante todos aqueles anos vai lidar com todo o assédio que sempre acomete as vítimas de crimes famosos? É possível lidar com o Lá Fora?


Essa foi uma leitura rápida, em que eu devorei o livro em menos de 3 dias. É daqueles que quando começamos a ler, somos fisgados e não conseguimos nunca largar até chegar ao fim. E quando chegamos ao fim, ficamos tristes por ter terminado tão rápido. A escrita de Emma Donoghe é maravilhosa, envolvente e quase te faz ouvir a voz do pequeno Jack falando e falando sobre sua vida. Foi a autora que adaptou o roteiro para o filme, e talvez por isso o resultado tenha sido tão bom. Embora algumas coisas não tenham sido trabalhadas no filme com a mesma profundidade do livro (como sempre acontece), tanto o livro como o filme são absolutamente sensacionais. Recomendo os dois. 
"No mundo, eu noto que as pessoas vivem quase sempre tensas e não têm tempo. Até a Vovó sempre diz isso, mas ela e o Vopô não têm emprego, então eu não sei como as pessoas empregadas fazem o trabalho e toda a vida também. No Quarto, eu e a Mãe tínhamos tempo para tudo. Acho que o tempo é espalhado muito fino em cima do mundo todo, feito manteiga, nas ruas e nas casas e nas pracinhas e nas lojas, por isso só tem um tiquinho de tempo espalhado em cada lugar, e aí todo mundo tem que correr pro pedaço seguinte"



 



Um comentário :

  1. Oi Coral, eu também vi o filme e chorei rios com ele, imagino lendo o livro em, está de parabéns sua resenha está ótima! Abraços garota. :*

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